O PAPEL DO PSICÓLOGO ESCOLAR
INTRODUÇÃO
A Psicologia Escolar vem sendo considerada até agora como uma área
secundária da Psicologia, vista como relativamente simples, não requerendo
muito preparo, nem experiência profissional. Dentro da instituição-escola é
pouco valorizada, até mesmo dispensável, haja vista a inexistência de serviços
dessa natureza, enquanto os de Orientação educacional e Supervisão escolar são
previstos e regulamentados por lei.
Essa
perspectiva, que nos parece bastante equivocada e inadequada, talvez provenha
do fato de que, historicamente, a área escolar tenha-se caracterizado como um
desmembramento da área clínica, o que gerou a visão de uma Psicologia Escolar
clínica.
Uma outra
abordagem seria a da acção preventiva da Psicologia Escolar. Prevenir significa
"antecipar-se a", "evitar", "livrar-se de",
"impedir que algo suceda". No contexto da escola o que se pretenderia
evitar ou impedir? A existência de problemas, de dificuldades ou fracassos?
A
conotação por vezes encontrada, entretanto, parece ser a de evitar desajustes
ou desadaptações do aluno. Maria Helena Novaes, ao defender a importância da
formação adequada do psicólogo escolar e sua responsabilidade profissional,
afirma que "dado o carácter sobretudo preventivo da actuação do psicólogo
escolar, essa orientação (psicológica) merece tanto ou mais cuidado do que
qualquer outra, pois tem como meta principal o ajustamento do indivíduo"
(1-pg.24). Caberia aqui discutir e esclarecer a natureza de tal ajustamento.
Dada a
possibilidade de se interpretar a perspectiva de prevenção como uma questão
meramente adaptativa, é que, no presente artigo, procuramos analisar duas
abordagens frequentemente encontradas com relação ao papel do psicólogo
escolar, e propomos uma terceira alternativa, que é a deste profissional como agente de mudanças.
O PAPEL DO PSICÓLOGO ESCOLAR
O papel do psicólogo na escola é mostrar aos professores,
baseando-se nas ideias da psicologia sócio-histórica, a importância que eles
têm para constituir a personalidade de seus alunos. Ou seja, mostrar-lhes que
as suas atitudes, relações, afectos, comportamentos com eles farão parte do que
os constituirão como pessoa, ou seja, determinarão as suas personalidades.
É necessário o professor ter consciência que a subjectividade de seus alunos, assim de como qualquer outro ser humano, será formado nas suas inter-relações. São suas experiências cotidianas, os sentidos que cada um dá para elas, é que formará a sua individualidade.
É necessário o professor ter consciência que a subjectividade de seus alunos, assim de como qualquer outro ser humano, será formado nas suas inter-relações. São suas experiências cotidianas, os sentidos que cada um dá para elas, é que formará a sua individualidade.
Deve-se divulgar, levar o conhecimento de como se forma a
subjectividade do aluno. Esta que, para a psicologia sócio-histórica, segundo
Aguiar (2000) é formada através das apropriações que as pessoas fazem das objectivações
dos seres humanos. Essas [objetivações] que são produtos da actividade social
humana ao longo da história, por exemplo, linguagem, instrumentos. Assim, o ser
humano a partir do momento em que se apropria das objectivações humanas com a
indispensável ajuda de outro ser humano, transforma-as como seu, atribuindo
sentidos a elas, se autoproduzindo e reproduzindo essas objectivações- a
cultura humana. Diz Pan e Cols (2011) que os processos de objectivações e
apropriações se constituem como mola propulsora tanto do desenvolvimento
sócio-histórico da subjectividade, quanto do desenvolvimento da sociedade, do género
humano (p. 8).
Assim, é importante que os professores entendam que a subjectividade
do indivíduo é formada através de uma relação dialéctica entre subjectividade e
objectividade. O indivíduo apropria-se das objectivações e atribui sentido a
elas. Objectividade e subjectividade se determinam, se relacionam. Para
Vigotski, citado por Pan e cols (2011) a construção da subjetividade individual
se dá através do processo de apropriação do significado social e da atribuição
de sentidos; o indivíduo converte o que é intersubjectivo para o plano
intra-subjetivo e vice-versa.
Nesse pensamento há algo muito importante a se considerar, e
sem dúvida nos impõe uma reflexão. Segundo a autora Aguiar, citando Goes (1992),
cada indivíduo torna intra-subjetivo o que é intersubjetivo e torna
intersubjetivo o que lhe é intra-subjetivo, entendemos que a maneira como as
pessoas se relacionam connosco, como elas nos tratam, como elas nos
caracterizam será apropriado por nós, quando atribuímos sentidos a isso. A
maneira como nos relacionamos com o outro foi determinada também por nossas
experiências interpessoais. Assim, pode-se pensar que a maneira como o
professor trata o aluno será de suma importância para como ele tratará a si
mesmo e como tratará as outras pessoas. Se um professor rotula um aluno de
incompetente, irresponsável e desprovido de inteligência, poderá determinar que
o aluno se sinta e se veja realmente como o professor lhe intitulou. Eis aqui,
talvez, uma das causas da dificuldade de aprendizagem, pois, que aluno terá
confiança em seus estudos e em suas potencialidades se há outro que lhe diz que
isso não lhe cabe.
A noção de que o indivíduo para conseguir construir sua subjectividade
depende do outro que lhe facilite, lhe transmita, directa ou indirectamente, as
apropriações das objectivações humanas também é de suma importância. O
indivíduo depende do outro para objectivar essa apropriação. Dessa forma deve
ser entendido que não há subjectividade sem que intersubjectividade, segundo
Pan e Cols (2011). O aluno para poder aprender, objectivar o que o professor
lhe ensina, necessita que este consiga mediar essa apropriação. Cabe ao
professor transmitir o conhecimento ao aluno de maneira que ele consiga
apropriar dele. Não há aprendizado na escola sem professor, assim, este tem um
papel importante no desenvolvimento intelectual do aluno e se os alunos não têm
bom rendimento escolar, cabe ao professor também rever a parte que lhe cabe
nesse baixo rendimento estudantil. Ambos, professor e aluno fazem parte desse
processo de objectivação do saber construído sócio-historicamente. Cabe
ao psicólogo escolar mostrar aos professores que a maneira como eles tratam
seus alunos é importante. Levar o conhecimento de que a subjectividade do aluno
está em constante formação, nas inter-relações, e que se o aluno não apresenta
um bom comportamento isso não é algo inerente a ele, ou a um grupo que ele
pertença, mas sim, foi construído no seu contexto histórico, e determinado por
ele.
Assim, a subjectividade do aluno, da pessoa, é vista como
unidade do diverso (de todas as suas relações), síntese de múltiplas
determinações, indissociável da intersubjetividade (relações entre os homens),
construída pela sua apropriação da cultura humana, ou seja, resultado da actividade
social humana (das objectivações humanas-linguagem, instrumentos, utensílios,
comportamentos, pensamentos), segundo Pan e cols (2011).
Dessa forma, mostra-lhes que o homem é um ser social,
construído. Ele não nasce com as suas características individuais, com suas
potencialidades, inteligência, deficiências e limitações, pois, antes de
construir sua subjectividade ele se encontra em um contexto colectivo, onde
necessita apropriar da cultura humana. São suas experiências e os sentidos atribuídos
a ela que formará a sua maneira de ser, sua subjectividade, esta determinada
pelo seu meio e pelos sentidos do sujeito, pertencente a um contexto político, económico
e historicamente construído.
Podemos pensar, então, no fracasso escolar não como um
problema do indivíduo, algo inerente dele, mas fruto das relações que ele
mantém e manteve em seu desenvolvimento. Cabe ao psicólogo escolar, segundo
Checchia (2003) promover reflexões a respeito de práticas sociais e escolares
que produzem os problemas de aprendizagem; se perguntar quem é este sujeito
escolar, de onde veio, como estudou, quais oportunidades teve, quais os
professores passaram por sua história e como se deu essas relações. Além de
tentar despertar a reflexão dos vários factores que interferem na produção da
queixa escolar, procurando entender qual o local que o aluno se insere na
relação com a escola. Possibilitar que o professor considere a importância da
sua relação com o aluno na construção da sua subjetidade e remover obstáculos
da aprendizagem. Entendendo que problemas de aprendizagem devem ser entendidos
no conjunto de relações institucionais, históricas, psicológicas e pedagógicas
que constitui a escola.
Para Meira (2003) o psicólogo escolar deve criar condições
para que os docentes repensem e problematizem suas práticas; ajuda-los na
compreensão do importante papel que tem como agentes da história; auxiliar na
compreensão crítica em relação ao psiquismo, desenvolvimento humano, e de suas
articulações com a aprendizagem e as relações sociais. Acreditamos que
esta visão de homem (ser construído pelas e nas suas relações) é de suma
importância para que os professores não culpabilizem os alunos pelos seus
fracassos escolares, atribuindo a eles limitações ou deficiências. Assim, o
professor pode se ver envolvido nesse processo de educação, assim como também
ser responsável pelo fracasso de seus alunos. Não com o intuito de retirar a
responsabilidade do aluno, da família, e atribuí-la aos professores, mas,
mostrar-lhes que professores também determinam, nas suas maneiras de
relacionar-se com o aluno, o modo de ser dele.
Dessa forma, o psicólogo atribui ao professor a importância
de sua actividade na formação da constituição da subjectividade do sujeito.
Transmitindo, assim, o pensamento de que a inter-relação aluno-professor é
essencial para o fracasso ou sucesso da educação. Além disso, cabe ao psicólogo
mostrar aos próprios alunos, quando possível, que eles também têm um papel activo
na sua própria educação, e são responsáveis pelas apropriações que fazem,
através das mediações dos professores.
O PSICÓLOGO ESCOLAR AGENTE
DE MUDANÇAS
Uma outra
alternativa que nos parece mais adequada e que não exclui, pelo contrário, se
beneficia das contribuições da Psicologia clínica e da Psicologia académica,
seria a do psicólogo escolar como agente de mudanças dentro da
instituição-escola, onde funcionaria como um elemento catalizador de reflexões,
um conscientizador dos papéis representados pelos vários grupos que compõem a
instituição.
Nessa
perspectiva precisa-se, ao contrário do que se colocou no início deste texto,
de um profissional experimentado, com preparo amplo e diversificado, uma vez
que a Psicologia escolar é então encarada como uma área de intersecção entre a
Psicologia clínica e a Psicologia organizacional, por trabalhar e lidar com uma
instituição social complexa, hierarquizada, resistende à mudança e que reflecte
a organização social como um todo. Nessa perspectiva é importante considerar o
indivíduo sem perder de vista, entretanto, sua inserção no contexto mais amplo
da organização.
Um
trabalho eficiente nessa linha teria que partir de uma análise da instituição,
levando em conta o meio social no qual se encontra e o tipo de clientela que
atende, bem como os vários grupos que a compõem, sua hierarquização, suas
relações de poder, passando pela análise da filosofia específica que a norteia,
e chegando até a política educacional mais ampla.
Em nosso
trabalho prático junto às escolas, iniciamos geralmente por um levantamento da
instituição onde pretendemos actuar. Procuramos caracterizá-la em seus aspectos
organizacionais, tentamos detectar a ideologia subjacente aos objectivos
expressos ou implícitos que a instituição contém. Começamos, assim, por um diagnóstico
da realidade da escola e, a partir daí, planejamos nossa acção.
Temos
procurado actuar junto ao corpo docente e discente, bem como junto à direcção e
à equipe técnica, tentando conscientizá-los da realidade da sua escola, reflectindo
com eles sobre os seus objectivos, sobre a concepção que subjaz ao processo
educacional empregado, sobre as expectativas que têm de seus alunos, sobre o
tipo de relação professor-aluno existente, enfim sobre a organização como um
todo.
As
queixas básicas comummente encontradas junto à instituição-escola referem-se à
dispersividade e desatenção, desinteresse, apatia, agitação, baixo rendimento e
fraco nível de aprendizagem, rebeldia e agressividade, bem como dificuldades na
relação professor-aluno e entre os próprios educandos. Tais problemas têm
aparecido na forma mais ou menos intensa em todos os graus, o que vem
caracterizar uma crise aguda e profunda pela qual a instituição vem passando.
A
tendência geral da escola é centrar as causas de tais dificuldades nos alunos.
As medidas que vêm sendo utilizadas para tentar resolvê-las ou contorná-las
resumem-se basicamente em:
1. Encaminhar os "casos-problema" ao
Serviço de Orientação Educacional ou ao Serviço de Psicologia, como se os
profissionais destas áreas tivessem soluções mágicas e prontas para tais casos;
2. Criar mecanismos de controle cada vez mais rígidos e
repressivos sobre o comportamento dos educandos através de inspectores de
aluno, comunicações aos pais, reduções nas notas, multiplicação das avaliações
etc.
Com relação
aos Serviços de Orientação Educacional, com excepções evidentemente, temos
observado alguns aspectos:
a. Não conseguem dar vazão ao crescente número de casos
difíceis encaminhados;
b. Buscam contactos com os pais, numa tentativa, na
maioria das vezes infrutífera, de transferir a resolução dos problemas para o
âmbito familiar;
c. Desenvolvem trabalhos junto ao corpo discente através de
aulas tradicionais onde são desenvolvidos temas, com uma conotação quase sempre
de caráter moral, discorrendo sobre a necessidade de "comportar-se bem,
ser bom aluno, bom filho" etc., numa tentativa de fazer com que os
educandos venham a preencher as expectativas que a instituição, especialmente
os professores, têm deles.
Em nosso
trabalho como psicólogos escolares, nessa perspectiva de agente de mudanças, temo-nos voltado basicamente para a
constituição de grupos operativos com alunos, professores e equipe técnica, no
sentido de encaminhar uma reflexão crítica sobre a instituição, incluindo o
processo de ensino-aprendizagem, a relação professor-aluno, as mudanças sociais
que estão ocorrendo, evidenciando com isso, a defasagem cada vez maior que se
estabelece entre a escola e a vida. Dessa maneira, procuramos desfocar a
atenção sobre o aluno como única fonte de dificuldades, como o único
responsável e culpado pela crise geral pela qual a escola passa, propiciando
uma visão mais global e mais compreensiva desta crise, procurando considerar
todos os seus aspectos e, conjuntamente, encontrar formas alternativas de
enfrentá-la.
CONCLUSÃO
Parece-nos importante esclarecer que não excluímos nessa abordagem
pesquisas voltadas para os processos dos indivíduos, pois de fato encontramos
inúmeros casos onde as dificuldades encontradas são do próprio aluno e não da
instituição. Tais casos necessitam de um enfoque mais clínico, que, quando se
faz necessário, é levado a efeito, sem entretanto, perder-se de vista o aspecto
institucional da questão.
Da
oportunidade que temos tido de actuar na área de Psicologia escolar, esta
vem-se configurando como um campo de acção extremamente rico, porém
inexplorado, desvalorizado e até mesmo pouco conhecido, não só dentro das
escolas, mas também dentro da própria categoria de psicólogos. O papel do
psicólogo escolar acha-se portanto, mal delimitado e mal definido, e o que
pretendemos aqui, com essas primeiras anotações, é encaminhar e aprofundar a
discussão sobre esse tema.
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